Nem toda travessia começa com um portal. Às vezes, começa com uma agulha.
- Suzana E. C. Simione

- 1 de mai.
- 2 min de leitura

O Portal da Anestesia: Quando a Fantasia Invade o Prontuário
Quem me acompanha por aqui sabe que eu prezo pelo rigor técnico, pela revisão minuciosa e pela estrutura narrativa. Mas, às vezes, a vida decide testar se a escritora de fantasia ainda está "ligada" mesmo quando o disjuntor da consciência é desligado.
Recentemente, precisei passar por um exame médico de rotina. Aquela coisa protocolar: dieta frugal (leia-se: um delicioso caldo de frango caseiro e muita água de coco), hospital e a famosa sedação. O plano era simples: dormir no hospital e acordar... bem, no hospital.
Mas a minha mente tinha outros planos.
A Transposição da Realidade
Dizem que a anestesia é um sono sem sonhos, mas para quem vive criando mundos, ela pode ser um portal dimensional. Entre o "conte até dez" e o despertar, eu não estava apenas em uma maca. Em algum lugar do meu subconsciente, eu estava em outro plano, em outra história.
O momento mais "fantástico" — e doloroso — foi quando a realidade física tentou invadir minha ficção interna. Senti uma dor aguda na mão. Na vida real, era apenas a enfermeira tentando, com certa dificuldade, encontrar uma veia teimosa. No meu mundo paralelo? Eu bradava que estavam "cortando a minha mão"!
Para uma autora de suspense e fantasia, uma picada de agulha nunca é apenas uma picada; é o clímax de um duelo, um ferimento de batalha, um sacrifício necessário para cruzar a fronteira.
O Despertar (ou a Edição Final)
O "plot twist" veio depois: dormi cercada de paredes brancas e acordei no conforto do meu quarto, na minha própria cama. Meu marido — meu fiel "Lindo" e sommelier de paciência infinita — contou, rindo muito, que, no meu estado de semiconsciência, eu insistia que queria ficar onde estava, "com o papai".
Minha irmã, ao ouvir o relato, morreu de rir. Disse que sou muito divertida, e criativa. E ela tem razão: a literatura não é algo que a gente faz; é algo que a gente é.
No fim das contas, talvez seja isso.
A gente passa a vida acreditando que escreve quando está lúcida, sentada, com o texto sob controle. Mas a verdade é que a escrita acontece antes — e apesar — de qualquer técnica. Ela escapa. Se infiltra. Se revela quando a gente menos espera.
Até ali, numa sala fria, sob o efeito de uma anestesia, enquanto o corpo repousa e a consciência falha, alguma coisa continua escrevendo.
Transforma a picada em ferida de batalha. O desconforto em enredo. O susto em memória.
E quando voltamos — para casa, para o corpo, para o cotidiano — já não somos exatamente os mesmos. Trouxemos algo conosco. Um fragmento. Uma imagem. Uma história.
Agora, com a “ressaca” médica devidamente curada (e o estômago ainda re
ssentido da dieta de fome), eu volto aos meus slides. Mas fica o aviso:
cuidado ao anestesiar uma escritora.
Você pode acabar atravessando um portal que nem sabia que existia.



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