top of page
Buscar

Nem toda travessia começa com um portal. Às vezes, começa com uma agulha.

O Portal da Anestesia: Quando a Fantasia Invade o Prontuário


Quem me acompanha por aqui sabe que eu prezo pelo rigor técnico, pela revisão minuciosa e pela estrutura narrativa. Mas, às vezes, a vida decide testar se a escritora de fantasia ainda está "ligada" mesmo quando o disjuntor da consciência é desligado.

Recentemente, precisei passar por um exame médico de rotina. Aquela coisa protocolar: dieta frugal (leia-se: um delicioso caldo de frango caseiro e muita água de coco), hospital e a famosa sedação. O plano era simples: dormir no hospital e acordar... bem, no hospital.

Mas a minha mente tinha outros planos.


A Transposição da Realidade


Dizem que a anestesia é um sono sem sonhos, mas para quem vive criando mundos, ela pode ser um portal dimensional. Entre o "conte até dez" e o despertar, eu não estava apenas em uma maca. Em algum lugar do meu subconsciente, eu estava em outro plano, em outra história.

O momento mais "fantástico" — e doloroso — foi quando a realidade física tentou invadir minha ficção interna. Senti uma dor aguda na mão. Na vida real, era apenas a enfermeira tentando, com certa dificuldade, encontrar uma veia teimosa. No meu mundo paralelo? Eu bradava que estavam "cortando a minha mão"!

Para uma autora de suspense e fantasia, uma picada de agulha nunca é apenas uma picada; é o clímax de um duelo, um ferimento de batalha, um sacrifício necessário para cruzar a fronteira.


O Despertar (ou a Edição Final)


O "plot twist" veio depois: dormi cercada de paredes brancas e acordei no conforto do meu quarto, na minha própria cama. Meu marido — meu fiel "Lindo" e sommelier de paciência infinita — contou, rindo muito, que, no meu estado de semiconsciência, eu insistia que queria ficar onde estava, "com o papai".


Minha irmã, ao ouvir o relato, morreu de rir. Disse que sou muito divertida, e criativa. E ela tem razão: a literatura não é algo que a gente faz; é algo que a gente é.


No fim das contas, talvez seja isso.


A gente passa a vida acreditando que escreve quando está lúcida, sentada, com o texto sob controle. Mas a verdade é que a escrita acontece antes — e apesar — de qualquer técnica. Ela escapa. Se infiltra. Se revela quando a gente menos espera.


Até ali, numa sala fria, sob o efeito de uma anestesia, enquanto o corpo repousa e a consciência falha, alguma coisa continua escrevendo.

Transforma a picada em ferida de batalha. O desconforto em enredo. O susto em memória.

E quando voltamos — para casa, para o corpo, para o cotidiano — já não somos exatamente os mesmos. Trouxemos algo conosco. Um fragmento. Uma imagem. Uma história.


Agora, com a “ressaca” médica devidamente curada (e o estômago ainda re

ssentido da dieta de fome), eu volto aos meus slides. Mas fica o aviso:

cuidado ao anestesiar uma escritora.

Você pode acabar atravessando um portal que nem sabia que existia.

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

© 2019 por Suzana Simione

bottom of page